Àqueles que lerão as aproximadas seiscentas palavras escritas
a seguir, segue um aviso. Singelo aviso de um amigo verdadeiro e sincero, que
carrega a franqueza para todos os lugares aos quais porventura vá, a despeito
de muito pouco gostar de sair de sua casa ou do pequeno escritório de advocacia
que mantém com antigos colegas seus de faculdade. E esse caturrismo não se deve
à coisa outra, senão à dificuldade que existe de levar para cá e para lá a
traia de tereré. Bom, eis o aviso: nada do que está escrito é novo, pois não há
nada de novo embaixo do sol ou acima dele. O que acima está é o eterno, e o
eterno jamais poderá ser novo. E o que está abaixo contém em si a tendência ao
eterno, de modo que também novo não poderá ser, pois o que tende ao eterno um
dia tornar-se-á eternidade.
Desse modo, porque não há nada novo embaixo do sol nem acima
dele, admiração causa o furdunço das sempre novas novidades no novíssimo mundo
em que vivemos. Por que cargas d`água as pessoas gostam tanto do que supõem ser
novo? Por que as ideias novas são tão apreciadas? Afinal, por que todos querem
um mundo novo, se nem do velho conseguiram dar conta? Essas perguntas causam
espanto, pois não há como saber se haveria alguém capaz de respondê-las
satisfatoriamente.
O que de fato interessa é que novidade alguma há no mundo. As
pessoas são o que são desde Adão, e não existe alteração na estrutura física ou
psíquica delas que seja digna de nota. Nenhuma mulher deixou de parir um homem
para parir um macaco. Nenhum macaco deixou de ser filho de uma macaca. E entre
os homens desde sempre há ladrões e
honestos, os que gostam de mulheres e os que gostam de outros homens, mulheres
confiáveis e outras nem tanto, santos e pecadores.
Logo, fácil é perceber que não existem mudanças ou novidades.
O mundo lida, e parece não saber, com os mesmos problemas desde sua fundação.
Só que o mais curioso não é isso; mas o fato de que ele sempre piora quando
tentam mudar as pessoas por uma força exterior a elas próprias. Aí a coisa fica
feia.
E fica tão feia que se pode dizer sem medo de errar que os novidadeiros
são o mal do mundo. E o problema maior é que eles agora estão em todo lugar.
Todos querem mudar o mundo, ainda que não o compreendam nem, portanto, saibam o
que realmente haveria de ser alterado. Há-se de repetir: os novidadeiros sempre
trazem tragédias com suas novidades, que novidades também não são, pois em
todas as épocas e em todos os lugares sempre houve quem se achasse o luminar da humanidade, capaz de trazer aos pobres inocentes luzes suficientemente fortes para
iluminar suas miseráveis existências. Eis algo que também se repete, e se
repete por alimentar-se de seus restos, como um monstro que cresce ao ingerir
seu próprio e cascudo rabo; o rabo do diabo.
Aliás, nem mesmo os discursos dos novidadeiros são novos. São
sempre os mesmos, e deixam todos a pensar: meu Deus, como se chegou aqui sem
que essa candeia iluminasse o caminho da humanidade?
Só que há um engano em tudo que foi dito e afirmado até agora.
Há uma novidade que merece análise. Trata-se do número dos novidadeiros. Se
antes eram dúzias, agora são milhões. E a novidade seria esta: a boçalidade,
antes restrita ao círculo de poucos idiotas, tornou-se mercadoria farta num
mundo cheio e orgulhoso de si, tão cheio e tão farto que não vê outra solução
senão exterminar-se para se reconstruir sobre os restos do que foi o homem,
talvez reconstruir-se como uma nova sociedade de orangotangos.
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